Receber a notícia da demissão gera uma mistura de emoções que dificulta o raciocínio claro. É exatamente nesse momento — quando a cabeça está mais acelerada — que decisões importantes precisam ser tomadas.
Saber o que fazer primeiro, nessa ordem, protege seus direitos e evita erros que seriam difíceis de corrigir depois.
Nos primeiros minutos: mantenha a calma e não assine nada ainda
A primeira reação importa. Antes de qualquer coisa:
Não assine o TRCT (Termo de Rescisão) imediatamente. Você tem o direito de levar o documento para analisar com calma — ou de pedir alguns minutos para ler antes de assinar. Empresas costumam criar urgência artificial em torno da assinatura, mas o prazo de pagamento é de 10 dias — não é agora.
Não tome decisões impulsivas. Discutir, ameaçar ou aceitar qualquer proposta verbal nesse momento raramente termina bem. Ouça, anote, agradeça se precisar — e deixe as decisões para depois que a cabeça esfriar.
Passo 1: Entenda a modalidade de demissão
A primeira informação que você precisa é: como você está sendo demitido?
Isso define seus direitos. As opções mais comuns são:
- Sem justa causa: você recebe aviso prévio, FGTS + multa de 40%, seguro-desemprego e todas as demais verbas
- Por justa causa: perde aviso prévio, multa de FGTS e seguro-desemprego
- Acordo mútuo (484-A): recebe versões reduzidas de algumas verbas, sem seguro-desemprego
- Pedido de demissão (proposto pela empresa): se a empresa está "sugerindo" que você peça demissão, cuidado — isso elimina vários direitos
Se a modalidade não for a que você esperava — ou se parecer que a empresa está forçando uma modalidade menos vantajosa — questione antes de assinar qualquer coisa.
Passo 2: Consulte o saldo do FGTS imediatamente
Antes de sentar para assinar o TRCT, abra o app FGTS da Caixa Econômica Federal e verifique:
- O saldo atual da conta vinculada
- Se todos os meses do contrato foram depositados
- Se há algum mês faltando
Tire um print do saldo com a data. Esse número é a base para calcular os 40% de multa que a empresa deve pagar. Se o valor no TRCT for diferente do que você calculou, há algo para questionar.
Passo 3: Calcule o que você deve receber
Com o salário e o tempo de serviço em mãos, estime as verbas principais antes de ver o TRCT:
- Saldo de salário: salário ÷ 30 × dias trabalhados no mês
- Aviso prévio indenizado: salário ÷ 30 × (30 + 3 × anos completos)
- 13º proporcional: salário × meses no ano ÷ 12
- Férias proporcionais + 1/3: salário ÷ 12 × meses no período × 4/3
- Multa FGTS: saldo do FGTS × 40%
Ter uma estimativa própria antes de ver o documento da empresa permite identificar discrepâncias imediatamente.
Passo 4: Leia o TRCT com atenção
Quando receber o Termo de Rescisão, não assine antes de verificar:
- Datas de admissão e demissão corretas
- Salário base correto
- Modalidade de rescisão correta
- Aviso prévio com o número de dias proporcional ao tempo de serviço
- 13º com os meses corretos (incluindo aviso indenizado)
- Férias vencidas incluídas (se houver)
- Multa de 40% calculada sobre o saldo real do FGTS
- Descontos apenas de INSS e IR (sem extras não autorizados)
Se encontrar qualquer inconsistência, aponte ao RH e peça correção antes de assinar.
Passo 5: Guarde todos os documentos
Antes de sair da empresa — ou logo nas primeiras horas após a demissão — reúna e guarde:
- TRCT assinado (peça uma cópia para você)
- Últimos 3 contracheques
- Carteira de Trabalho (física ou confirmação digital)
- Requerimento do Seguro-Desemprego (a empresa deve entregar)
- Comprovante de saldo do FGTS (print do app)
- Comunicado de demissão por escrito (e-mail ou documento)
- Registros de ponto (se tiver acesso)
Esses documentos são fundamentais se você precisar questionar qualquer valor posteriormente.
Passo 6: Solicite o seguro-desemprego no prazo certo
O seguro-desemprego tem uma janela de solicitação: do 7º ao 120º dia após a demissão. Não pode ser antes, não pode ser depois.
A solicitação pode ser feita:
- Pelo app Carteira de Trabalho Digital
- Pelo portal gov.br
- Presencialmente no SINE (Sistema Nacional de Emprego)
Você vai precisar do requerimento entregue pela empresa, do TRCT e dos últimos contracheques.
Passo 7: Libere o saque do FGTS
Após a empresa comunicar a demissão no eSocial, o FGTS geralmente fica disponível em até 5 dias úteis. Acompanhe pelo app da Caixa.
O saque pode ser feito:
- Pelo app FGTS (para contas cadastradas)
- Em agências da Caixa Econômica Federal
- Em casas lotéricas (com limite de valor)
Passo 8: Planeje os próximos meses
Com a rescisão recebida e o seguro-desemprego em processo, é hora de fazer as contas:
- Por quanto tempo o dinheiro da rescisão sustenta as despesas essenciais?
- Qual é o valor estimado das parcelas do seguro-desemprego?
- Qual a reserva de emergência disponível?
Esse planejamento evita decisões financeiras impulsivas — como gastar o FGTS em algo não prioritário — no momento de vulnerabilidade pós-demissão.
O que NÃO fazer após a demissão
Não assine pedido de demissão se foi a empresa que tomou a iniciativa. Se a empresa está te demitindo, a modalidade correta é demissão sem justa causa — não pedido de demissão.
Não aceite parcelamento da rescisão. A lei não permite parcelamento. O valor deve ser pago integralmente no prazo de 10 dias.
Não perca o prazo do seguro-desemprego. 120 dias passam rápido. Solicite logo após o 7º dia.
Não saque o FGTS antes de entender suas opções. Se você está no Saque-Aniversário, por exemplo, há implicações específicas. Entenda antes de agir.
💡 Calcule o que você deve receber com a Calculadora de Rescisão do Acerto Exato e compare com o TRCT antes de assinar.
Aviso legal
As informações deste artigo têm caráter exclusivamente educativo e informativo. Situações individuais podem apresentar particularidades que alteram os procedimentos recomendados. Em caso de dúvida sobre seus direitos, consulte o sindicato da sua categoria ou um advogado trabalhista.
